12 de fev de 2011

Insensibilidade

Insensibilidade

Cortaram minha amoreira e com ela seus troncos grossos e vigorosos que seguravam minhas orquídeas. Não me consultaram... Apenas, cortaram a golpes de machados tão pesados quanto à dor que senti o vê-la amputada, já sem vida. Aproveitava sua sombra todas às manhãs e seus frutos saborosos em tom de vinho, ofereciam-me vida. Sem nenhuma sensibilidade tiraram-lhe a vida e as vidas que à mesma abrigava. Nada me perguntaram, nada perguntariam, há pessoas que vivem pelo que pensam, decidem e não se dão ao trabalho de perguntar a ninguém o que sentem. Se eu soubesse que aconteceria teria argumentado e impedido que destruíssem a árvore generosa que enfeitava meu quintal. Minhas orquídeas, plantadas carinhosamente por essas mãos que escrevem, abrigavam-se a sombra da árvore parcialmente destruída. O pior é sentir que muitas vezes, assim como a amoreira, deixe-me podar sem perceber. Em um tronco agora sem nenhuma vida estão as orquídeas enraizadas e banidas da copa da árvore que as abrigava. Acabaram-se os ninhos, os pássaros que buscavam repouso, as brincadeiras dos meus filhos... Nada pode conter as lágrimas que enquanto escrevo vertem. Sinto-me assim tolhida, podada, aniquilada pela força e decisão de alguém, que um dia decidiu que não havia mais lugar para a vida da árvore... ”Ela fazia sombra no campo de futebol!”
Wanderlúcia Welerson Sott Meyer
Publicado no Recanto das Letras em 12/02/2011
Código do texto: T2788011