14 de jul de 2010

Jeito de Ser Feliz!


Corro para os braços de quem me acolhe com carinho, como criança que recebe um presente inesperado. Nem sempre sou acolhida com desejo que esperava... Mas, fiz a minha parte, estendi os braços aos abraços. Forma de ser ingênua, contudo calorosa que me faz um pouco diferente dos que se fecham ao amor. Sigo o que meu coração indica, assim como deixo que as palavras soltas se transformem e de forma sonora ou escrita, traduzam o que minha alma pede. Caminho na direção da emoção, com alguma racionalidade adquirida pelas experiências dolorosas, mas, não permito que a razão comande. O que há de mais belo no mundo do que deixar-se amar e ser amado? Também corro, literalmente, de quem não sabe sorrir, de quem se pensa apto a julgar, de quem não sabe agradecer ou pedir desculpas quando necessário for, de quem diz ter verdades e certezas, de quem não olha nos olhos, de quem não é verdadeiro, de quem se diz sábio.
Sou aprendiz da vida! E quero poder ir e vir, deixando sempre o perfume da saudade, da lembrança, da partida... Sem nunca dizer adeus! 

Wanderlúcia Welerson Sott Meyer 

Publicado no Recanto das Letras em 14/07/2010
Código do texto: T2377397

11 de jul de 2010

Violência cotidiana e família




            Eu sou mineira, nascida e criada em Manhuaçu, um a cidade do interior que muito me ensinou sobre solidariedade, amizade, respeito e convivência. Também por ser mineira, cresci em uma dessas famílias que estão em extinção. Aprendi a respeitar o ser humano, a tratar as pessoas com igualdade, a usar os pronomes de tratamento Senhor e Senhora quando me refiro a pessoas mais velhas do que eu, a respeitar meus pais e a amá-los. Penso que muitas pessoas que lerem esse texto pensarão: isso está fora de moda. Pois estou sim fora de moda e educo meus filhos para também para não seguirem nenhuma moda. Nunca acreditei que dinheiro em excesso trouxesse felicidade. Aprendi que mais vale o calor de um abraço do que um caro brinquedo depositado na mão de uma criança (que certamente o deixará depois que a novidade deixar de ser importante), do colo oferecido sem pressa, do afago das mãos e as palavras sinceras de afetividade que pais e mães esquecem-se de proferir e sentir, trocando bens materiais, pela imprescindível presença do amor.
Sou mineira, uma caipira nascida em uma cidadezinha que muito me ensinou e me orgulho disso! Um orgulho que nunca me colocou acima de ninguém e que me ofereceu amigos vida a fora, de todas as classes sociais (não gosto muito dessa classificação, temos que ter classe educacional), cultura e diversidades que sempre contribuíram e muito para minha formação.
Ouvia minha avó dizendo que não importava se um “chefe de família” (hoje, homens e mulheres), estivesse à beira da morte, cabia aos filhos o respeito e a consideração pelo papel que o mesmo representa. Sinto-me mesmo fora de moda... Ensino meus filhos a respeitarem o outro, a serem verdadeiros e gentis, a amarem, a expressarem o amor com palavras e atitudes, a olharem nos olhos quando falam e a dizerem o que pensam com respeito e carinho. 
Muitas vezes me perguntei se os estou educando adequadamente, em um mundo que insiste em negar a importância da família, em que o ter sobressai o ser, em que a correria do dia a dia nos transforma em robôs sem sentimentos, onde agredir ou usurpar um colega de escola ou de trabalho tornou-se algo a ser admirado.  Na verdade, me pergunto tudo isso, não porque tenha alguma dúvida sobre o que o ensino, mas, e já me alertaram isso inúmeras vezes, “quem se importa com todos esses valores nos dias de hoje?”... Eu me importo e sei também que eles se importam. Apesar de crianças, sentem a indignação de verem que alguns dos amiguinhos não aprenderam aquilo que já interiorizaram, nada substitui o amor e dizem, apesar da pouca idade, “eu amo minha família!” Quanta coisa e quantas situações podemos evitar quando o verdadeiro amor existe? Quanta dor e quantos crimes podem ser impedidos quando sabemos que em casa, alguém nos espera e nos ama? Quanto sofrimento poderia ser minimizado se ao invés de comprarmos produtos caros e desnecessários, organizássemos nosso tempo para ir a uma festinha na escola de nossos filhos, ajudá-los na arrumação das mochilas, olhar seus cadernos de deveres e cdepositar palavras de carinho e incentivo nas avaliações e testes que eles nos mostram com medo e orgulho? Quanto admiração e respeito poderíamos construir nessa relação de afeto que nós serve de base segura para todas as decisões e atitudes futuras?
Estou sim em desuso e fora de moda, mas, já vi no rosto a indignação dos meus filhos quando pais deixam de ir a uma festinha dos filhos e enviam outras pessoas que passam a integrar sim a família e chegam a ser mais importantes que os próprios pais, por que ali estão presentes, mas, que jamais substituirão a necessidade da presença dos que ali deveriam estar.
Já ouvi uma mãe dizer que era apenas provedora, penso que na hora que essa pessoa de escolaridade avançada e “esclarecida”, proferiu essas palavras, não sabia mesmo o que estava dizendo. Podem me considerar ultrapassada, mas, eu me senti ofendida pela criança e fiquei imaginando se não passou a da hora de lembrar a algumas pessoas que só o amor educa e que podemos ler e ouvir todos os dias casos em que a ausência do amor, do afeto e da família causou estragos irreversíveis para inúmeros seres humanos que poderiam escrever histórias diferentes.
Jovens que atam fogo em índios, batem em empregadas domésticas, matam seus pais, envolvem-se em situações de violência e morte e depois são tomados pelo arrependimento tardio, caminhos sem volta, violências desmedidas de quem não conhece o que o amor. A cada caso desses que a mídia explora até que o ódio que existe em nós, caminhe energeticamente a cada um dos envolvidos, fica dentro de mim a dor e a reflexão de que a história poderia ser diferente se o que chamam de ultrapassado, de utopia, de piegas, de ilusão passasse a fazer parte da formação dessas pessoas desde os primeiros instantes de vida! É com profunda tristeza que escrevo tudo isso, porque a certeza que tenho é a de que tudo é mais simples do que se imagina, “a lição sabemos de cor, só nos resta aprender”.
Não adianta julgar, condenar, pedir pena de morte, linchar ou proferir maldições depois que essas atrocidades acontecem. Só sabe amar que foi amado, só sabe respeitar quem cresce em ambiente de respeito e carinho. Só se aprende quando alguém nos ensina e não há forma mais lúcida e verdadeira de ensinar, do que o próprio exemplo.
Estou em desuso, fora de moda... Acredito no ser humano, nas pessoas e no amor!
Wanderlúcia Welerson Sott Meyer
Publicado no Recanto das Letras em 11/07/2010
Código do texto: T2370820

9 de jul de 2010

Aprendendo a dizer...Aprendendo a viver...




     Esses e todos os outros dias que já não consigo mais dizer se são segundas ou domingos, parecem sem nenhuma espécie de diferença e vida. Estou a me arrastar furtivamente, buscado nas profundezas de mim mesma. forças que ficam cada vez mais difíceis de serem encontradas.
     Acordo e faço tudo o que me foi atribuído como dever, mas, falta-me a motivação, a cor que produz sonhos e nos impulsiona à vida. Confessar isso, depois de quatro anos de batalha árdua contra os resultados inesperados de uma cirurgia mal sucedida, me provoca emoções contraditórias. Nenhuma revolta ou maldizer, mas uma dor interna que não cessa e que insisto em não classificá-la como depressão.     Me rendi a quase tudo que nunca pensei em fazer uso. Já nem sei quantos dias e noites chorei lutando contra esta visita indesejada. Recordo-me os dias onde pensava seguir caminhos que foram escolhidos por mim e, pasmo diante de minha pretensão. Pensava ter todas as respostas, todos os antídotos... Ledo engano, não tinha nada e o leme desse barco que a quarenta e dois anos comecei, aparentemente, a conduzir, estava à deriva. Eu não sabia.
     Não pensem vocês que perdi o gosto pela vida e não relato aqui nenhum lamento. Tudo isso faz parte de uma transgressão interna que já não suporta mais que eu diga que sou forte, que terei novamente o domínio da situação que, erroneamente acreditei prevalecer a minha vontade.
     Sinto que os dias me conduzem e continuo a procurar cores e motivações para que não fiquem todos com a sensação de déjà vu. Esse tipo de sensação só é prazerosa quando nos reporta a situações de alegria.
     É de cores, adversidades e motivos que os dias que virão precisam ser preenchidos. Não adianta mais me dizerem o quanto sou forte, descobri minhas fraquezas e, agora, em um ato de entrega absoluta, prefiro aceitá-las. Não se assustem, não me falta coragem, só me deixem sentir!
     Estou farta de afirmar que sou forte. Já interiorizei o quando “ser essa fortaleza”, me deixou sozinha.Foram os seus muros que não permitiram que ninguém percebesse o quanto doía , quantas lágrimas derramei e, quantas vezes, exausta me deixei tombar ao chão, sem nenhum amparo. Não me digam mais para não sentir. Sei que há caminhos! Preciso apenas deixar que os sentimentos me despertem. Preciso entendê-los!
Wanderlúcia Welerson Sott Meyer
Publicado no Recanto das Letras em 09/07/2010
Código do texto: T2367707

3 de jul de 2010

Primeiro dia depois que resolvi viver...





           O sono era conturbado, as dores e dúvidas muitas. Já havia levantado inúmeras vezes sem nenhuma vontade de ficar ali. Há muito me isolara na cama, deitando em posição fetal, buscando aquecer meu próprio corpo. À noite, engolia com seus assombros e os sonhos me furtavam o sono. Vinham todos os anseios, todos os desejos de uma só vez. É estranho quando se tenta fazer de dias e noites um passamento de vida. Não é possível observar em que dia da semana se situa e as horas tornam-se pesadas demais, longínquas e perturbadoras. Tudo que sentia é que perdera completamente meus objetivos, poucas certezas tinha e, a sensação era sempre acompanhada da pergunta: O que fazer agora?
            Na escuridão da noite, podemos vislumbrar o que há de mais obscuro em nós mesmo. No silêncio, somos capazes de comungar sem digerir nossos pensamentos mais fortes e verdadeiros. Sentia-me refém de uma dor interna que não passava, perdida como menina em um bosque escuro e aparentemente perigoso, esquecera-se de deixar pistas para retornar. Levantei-me da cama e lembrei-me de um e-book que havia comprado, do livro que estava acabando de ler. Minha ansiedade direcionava-me a leitura voraz e a reclusão. Lendo sentia que o tempo todo ainda não estava perdido. Precisava me afogar nas letras, nos sonhos, nos contos verdadeiros ou não de alguém, para preencher os vazios que tanto me perturbavam.
            Na verdade, a única coisa que queria naquele momento, era os braços de alguém que me aconchegassem sem nenhum interesse, que me ouvisse apenas, que  transformasse aquela solidão em partilha. Muitas vezes, desejei apenas isso... Acalento, afeto, colo. E naquela tempestade, poucos foram os momentos que alguém me ofereceu amparo. Quando se é “demais”, ninguém percebe ou acredita que você não vá sobreviver à dor. Todos esperam que o seu interior se sobressaia sozinho e íntegro. Não há percepção da necessidade de afeto. Quanto mais forte somos, mais solitários ficamos quando as adversidades nos visitam.
            
Wanderlúcia Welerson Sott Meyer
Publicado no Recanto das Letras em 03/07/2010
Código do texto: T2355869