13 de out de 2009

Relacionamentos e recomeços


Uma proposta de recomeço é sempre pautada pela dor dos acontecimentos que desestruturam e romperam uma relação. As lembranças perturbam e o medo de que a história se repita sempre estará presente.
Não se apagam dores como se apagam escritos com borrachas. Mesmo escritos, deixam marcas. As almas já não são as mesmas e a percepção, pautada pela dor, não consegue sentir transformações, sem mágoas. O recomeço envolve o restabelecimento da confiança abalada. Possibilidade remota de reconstrução. Retalhos que não se encaixam harmoniosamente. Verdades nunca ditas vêm à tona.
Existem dúvidas que jamais serão esclarecidas, espelhos que nunca refletirão a imagem que antes permeava a relação. Ou se fecha os sentidos às dúvidas e se aposta no futuro, ou se devasta todos os alicerces para a construção do novo. Essas atitudes acarretam perdas, ganhos e danos. Já não há escolha. Não há como se trilhar simplesmente o caminho, sem a percepção clara de o que se quebra, mesmo que colado minuciosamente, toma outra forma, pede nova vida.


Wanderlucia Welerson Sott Meyer

9 de out de 2009

Sinceridade

          Tudo em mim transborda sinceridade, menos o que vivo. São as adaptações que a convivência e a civilidade nos forçam a fazer. Não dá pra ser franco todo o tempo, porque nem sempre as pessoas querem saber a verdade. Há um incômodo em ser assim. Uma incoerência que perturba, um desejo encoberto por conveniência. Estamos em lugares que não desejamos, sorrimos para pessoas que não nos tocam, falamos pouco para que as palavras não se voltem para nós mesmos. Verbos que não correspondem às ideias que temos de situações, pessoas, lugares...

          Não dá pra ser sincero todo o tempo. Pode-se ferir profundamente, destituir ilusões, afogar sentimentos, abalar vidas. Há uma mediação entre o que é dito e o que deve ser dito. Mas, a alma, moldada pela hipocrisia da verdade (nunca soube direito qual é a verdade) pune, nos coloca com algozes, feras que omitem, poços de mentiras.



Wanderlúcia Welerson Sott Meyer

Publicado no Recanto das Letras em 09/10/2009

Código do texto: T1856910

8 de out de 2009

Eu tenho medo...

Medo da verdade.
Medo do caminho.

Da insanidade

De estar sozinho.

Medo do abandono

Medo do encanto

Medo do engano,

Medo ou vaidade?

Medo de ter medo.

Medo da coragem.

Do que não foi dito.

Dura realidade.

Medo de entrar

Sem ser convidado.

Medo de amar

De sentir saudade.


Wanderlúcia Welerson Sott Meyer

Saudade



Tantas lembranças,
Encontros e caminhos...
Espaços preenchidos pela saudade...
A chuva cálida ao cair,
Contrasta com frio sentido.
Ausência de afeto
Cárcere de sorrisos
Desejos guardados
Jamais esquecidos.
A alma hiberna
Um sono profundo
Acordar...
Ir de encontro a realidade.
Caminhos obscuros
Prisão, sem lamentos
Não há na saudade
Nenhum descaminho
Por desejo e vontade
Encarcera-se sozinho.
Lembranças e lamentos
Do que deveria
Saudade sublime
Que não alivia.

Wanderlúcia Welerson Sott Meyer
Publicado no Recanto das Letras em 08/10/2009
Código do texto: T1854974

6 de out de 2009

Desejo de amor

Não era nada do que imaginei...


Nunca fora...


Coube a minha ilusão,


À paixão que sentia...


Todas as conclusões que tirei.


Eras um príncipe ao meus olhos


E somente eu não via


O que se tornou óbvio.


Não eras o homem que imaginei.


E nem tão pouco eram as palavras que ouvia,


A verdade absoluta do que sentias.


Eu as traduzia no que acreditava ser verdade.


Ouvia o que ecoava nas entrelinhas.


O tempo passou,


A vida nos separou...


Agora, consigo escutar com clareza.


Temos mundos e desejos diferentes.


Diferentes e diversos...


Certamente, nunca se encaixariam.


Já não sou mais a menina de antes.


Perdi no caminho


Muitas das ilusões que tinha.


O que ficou, e é essência


A vontade de buscar


O amor que um dia sonhei existir


As palavras que um dia quis ouvir.


O homem que sonhei ser meu.


E se depois de tudo...


Ainda não encontrar


Ficará em mim esse desejo eterno...


Esse anseio puro...


Essa utopia que me faz viver.





Wanderlúcia Welerson Sott Meyer


Publicado no Recanto das Letras em 18/07/2008


Código do texto: T1086999

Inclusão

Acredito na Inclusão Escolar e, por conhecer um pouco sobre Baixa visão e cegueira, fui convidada para ministrar um curso de extensão na FADILESTE, em Reduto. Foram três finais de semana de muito trabalho, onde discutimos temas relacionados à inclusão social e educativa de alunos portadores de necessidades especiais, principalmente, aqueles que pela perda da visão total ou parcial, aprendem a “ver além do olhar”.
A inclusão, legalmente instituída desde 1989, caminha lentamente e está longe de poder ser considerada para todos. O preconceito e o desconhecimento ainda são maiores do que o reconhecimento do direito de cidadão dos portadores de necessidades especiais. Essa barreira só poderá ser rompida com atitudes como dos administradores da FADILESTE que além de nos convidar ao desenvolvimento do curso, também ofereceu os recursos necessários para o desenvolvimento do mesmo.
Um fato me chamou a atenção, através das discussões e estudos que aconteceram no evento, foi possível constatar a exclusão em que ainda se encontram os deficientes visuais. Não há cadastro do número de cegos e portadores de baixa visão em nossa região. Como se os mesmos não existissem. As associações e projetos que até desenvolvem trabalhos significativos com portadores de necessidades especiais, em sua maioria, classificam os deficientes visuais como portadores de deficiências múltiplas, o que acarreta falta de material e profissional habilitado para o aprendizado do Braille, da mobilidade e, da verdadeira inclusão social e educativa dos mesmos.
Minha experiência profissional me proporcionou o conhecimento e reconhecimento da relevância desse trabalho. Não há nada mais importante para o deficiente visual do que sua socialização e independência e, sem nenhuma utopia, porque já presenciei vários resultados positivos, gostaria de deixar o incômodo das perguntas que ficaram ao final do curso: Onde estão nossos deficientes visuais? Não existem ou se encontram aprisionados em suas residências por falta de um projeto que os liberte? Até que ponto as escolas públicas e particulares têm oferecido à possibilidade da real inclusão desses alunos em suas redes? Levando-se em consideração que existem pessoas que perdem a visão na adolescência e na vida adulta, onde se encontram e o que estamos oferecendo a elas para que continuem a viver com autonomia e alegria? O que poderia ser feito para mudar esse quadro?
Meu incômodo se deu a partir da felicidade que constatei como professora do EJA em Juiz de Fora, recebendo e incluindo verdadeiramente vários alunos portadores de deficiência visual, aprendendo com eles que o “essencial, realmente é invisível aos olhos” e, que nossos preconceitos limitam e muito, não somente a eles, mas, a nós mesmos que de certo não sabemos ainda perceber e integrar portadores de necessidades especiais.
O fato é que, nenhum favor estamos fazendo em atendê-los, são amparados legalmente e têm direitos como cidadãos. Perderam um dos sentidos, mas, isso não significa que devam perder a alegria de viver, pelo contrário, são sinônimos de atitudes positivas e otimistas. Pessoas que sorriem e enxergam com a alma e que são tão capazes ou mais do que muitos de nós que nos consideramos “normais”. E o que é mesmo ser normal?

“Nem todas as diferenças necessariamente inferiorizam as pessoas. Há diferenças e há igualdades - nem tudo deve ser igual, assim como nem tudo deve ser diferente. /.../ é preciso que tenhamos o direito de sermos diferentes quando a igualdade nos descaracteriza e o direito de sermos iguais quando a diferença nos inferioriza.” (MANTOAN, 2003, p.34)



Wanderlúcia Welerson Sott Meyer