1 de jul de 2011

Antes de partir : Reminiscências

Podia-se sentir ainda o orvalho que umedecia as folhas. A paisagem antes representada pela beleza natural de uma região onde o relevo predominante transformava a imagem refletida em montanhas que mais pareciam grandes ondas fora substituída pela destruição. Os olhos tão úmidos quando a natureza. O raciocínio sem nenhuma coerência tentava entender o que havia acontecido.
Fizeram tantos planos, queriam alçar tantos voos e agora só lhes restavam perdas. Ao longe, ouviam-se gemidos que emudeciam gradativamente. Confundia-se, eram realmente gemidos, ou sua própria alma se retorcia pelas lembranças felizes do dia anterior?
Chovia, mas, em família comemoravam a possibilidade do encontro, faziam planos para novos feriados. Estavam reunidos, como muitas vezes estiveram na casa que guardava suas lembranças de infância. Alto de serra, com vista inconfundível, longe do barulho e movimento ruidoso da cidade. Amplos quartos, uma grande piscina, momentos de alegria que dissipavam as dores internas, cotidianas e ocultas. Pensamentos confusos, dores intensas embaralhados aos últimos momentos em que sentia que, definitivamente, sua vida mudaria.
Todos se preparavam para dormir e, no dia seguinte, depois de um farto almoço, seguiriam para suas casas. Ainda se lembrava das palavras de sua mãe, fazendo planos para a semana seguinte.
- Sairemos na terça para solucionar as pendências do inventário de seu pai!
O marido que se encontrava próximo, disse-lhe sutilmente.
Não ouse assinar nada sem me consultar! Era quase uma ordem. Ele temia que sua mãe favorecesse seu irmão mais novo. Nunca se deram bem, parecia-lhe que o marido tinha ciúmes de seu irmão ou, sua ambição era maior do que seu bom senso.
Por um momento parou para pensar e, lembrou-se de não ter beijado seu filho que adormecera em frente da televisão. Todos os fatos e atos que automaticamente executava, ganhavam um valor real diante de tanta dor. Frases, palavras, abraços... Ditos ou não, dados ou não... Possuiam agora uma importância maior e significativa.
Ao seu redor a destruição era a única realidade. Sentia-se imobilizada, dores por todo corpo, nem de longe percebia os cuidados que teve com sua estética antes de viajar. A lama encobriu tudo! As árvores desceram com uma avalanche de água e terra Não conseguia perceber que debaixo daqueles escombros, antes existia uma construção sólida em meio a uma paisagem indescritível.
As dores, ainda mais intensas causavam delírios. As horas passavam e, ela nem sabia ao certo quanto. Minutos pareciam dias intermináveis. Não tinha forças para gritar e, se gritasse, guardava a certeza de que ninguém ouviria. Confusa, já não sabia o que lhe era real. O que realmente vivera ou, o que seu imaginário direcionava. Lembrou-se, em um rápido momento de lucidez que treze pessoas estava dormindo quando tudo aconteceu. Depois se lembrou, não sem lágrimas, que na casa do caseiro viviam mais cinco pessoas. Entre os destroços, procurou ergue-se com dificuldade para ver se esta casa também havia sido atingida. Poderia ser uma esperança, embora já não discernisse mais qual seria sua vontade... Perecer por entre os encontros ou ser salva e recomeçar a viver? Tinha muitas dúvidas quanto ao recomeço. Ainda tinha esperança que, milagrosamente, todos estivessem vivos e salvos.
Em um esforço quase sobre-humano para erguer-se, conseguiu ver com espanto o lugar onde moravam o caseiro e sua família. Nada restara. No local onde ficava a modesta e confortável casa, somente lama se via.
As dores aumentaram. Ela gemia aos prantos e sentia... Já havia assistido tragédias em proporções até maiores diante da televisão, na tela de seu notebook, no entanto, como espectadora, nunca se imaginara protagonista. Nascida em uma família de classe média alta morara em uma excelente casa, área de nenhum risco. Quando se casou, mudou-se para um amplo apartamento, em um condomínio residencial e seguro. Nunca houvera convivido tão diretamente com tanto sofrimento!
Ainda entre muitas lágrimas, recordava os valores que apreendera as etiquetas sociais, as convenções, naquele momento nada disso tinha a menor importância. Ela de certa forma sentia que parte de sua essência havia se perdido, tudo lhe parecia absolutamente sem sentido.
A chuva recomeçava a cair lavando-lhe o rosto. Suas pernas, ainda presas reforçavam a certeza de ser a única sobrevivente de tão inusitada tragédia. Sentia claramente que suas forças terminavam, a confusão mental era grande, já não conseguia coordenar nenhum pensamento. Seus três filhos, marido e todos os outros se encontravam em um silêncio angustiante e absurdo. Silêncio dos mortos! Gemia agora não pelas dores físicas, estas eram tão fortes que já não faziam diferença. O que doia, dilacerava, eram lembranças, saudades, a perda real da vida, a presença certa da morte.
Subitamente ouviu latidos ao longe, gritos, deveriam ser pessoas que procuravam sobreviventes. Queria mesmo ter motivos para viver! Olhou até onde sua vista alcançou, nada viu. Como que entrando em um estado profundo de sono, cerrou os olhos e entregou-se às lembranças felizes.
À noite, as notícias focavam a tragédia serrana. Uma de inúmeras outras. As pessoas ouviam estarrecidas. Muitos elevavam preces aos que se tornaram vítimas fatais, voluntários ajudavam os sobreviventes...
Com o tempo a vida seguiria seu curso, sua falsa e equivocada normalidade. Ficariam apenas lembranças de uma fatalidade sem precedentes. A vida seguiria com suas incertezas, seus temores, seus efêmeros momentos de alegria. 


Wanderlúcia Welerson Sott Meyer 
Publicado no Recanto das Letras em 01/07/2011
Código do texto: T3068250