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Viver a vida


           Nunca sei o que é devido e o que me cabe. Dúvidas que carrego como uma incômoda cólica e que sei que me atormentarão do berço ao túmulo. Há entre o que posso e o que o quero, uma distância enorme. Distância que me coloca muita das vezes em uma encruzilhada permitida e descabida, levando-me a insatisfações quase tão tardias quanto o auxílio médico quando o espírito já se foi do corpo. Não ligo muito para o que pensam, não me importo nada com o que fazem, sigo indefinidamente. Meus instintos seguem meio    que atormentados e perdidos entre os deveres que a vida me impõe. Sou uma mistura fina de muitas sensações e sentimentos que nunca são negados, mas, por vezes, são legados ao esquecimento. Toda pressão que me causam quando os olvido fornecem-me uma tristeza inexplicável que transborda pelos olhos, uma insatisfação aguda, quase crônica e terminal.
              Não é que eu queira transformar a vida em um caminho aleatório e questionável... Na verdade penso mesmo que a vida é assim... Um universo de desejos repreendidos que poucos conseguem transpor. Estamos em um lugar e queremos obter asas que nos conduzam a outro. Nem sempre quando amamos somos amados e, em contraponto, podemos não amar quem nos ama. Só compreendemos a tempestade depois que as turbulências passam e perdemos oportunidades durante o percurso por nos mantermos de olhos vendados para a vida.
        Dedicamo-nos a uma causa e, em um momento de lucidez, percebemos que depositamos energia demais em um único local. Isso, quando não nos dedicamos a alguém e sentimos que diluídos no outro, nos perdemos. Recusamos nossas limitações, agimos como verdadeiros heróis e, eis que quando necessitamos estamos sozinhos, abandonados em nosso heroísmo cego que não deixa que os outros nos vejam como seres humanos. Humanos? Sim. E por vezes fracos, inconsequentes, incapazes, pouco verdadeiros e legados ao abandono. Isso talvez seja o que mais certo recebemos.
Wanderlúcia Welerson Sott Meyer
Publicado no Recanto das Letras em 14/08/2010
Código do texto: T2437661

Gratidão

Certezas de Amor

Estavas ali, sempre estivestes.

Não era matéria palpável

Nem ilusão temporária

Fazia parte dos dias

Desde sempre...

Um alento nos momentos de dor

Uma esperança de amor

Visitava-me nos sonhos

Acariciava-me o rosto

Registrava-se a presença

Partia...

Permanecia a sensação do encontro

Serenidade pretendida

Essência de sentimentos duradouros

Suavidade que se sente

Tal brisa suave tocando o corpo

Indivisível êxtase

Emoções desejadas

Puras, intensas

Tradução apropriada de Amor!

Amor maduro

Será preciso tempo para regenerar as lesões provocadas pelo desvario dos sentimentos. Não é possível afirmar se era amor de fato. Serviu como alento enquanto próximo estava. Agora, que apreende e absorve palavras proferidas sem nenhum compromisso estreito com a verdade, analisando frases soltas e atitudes contraditórias, percebe-se claramente a ineficiência das palavras que não condizem com a verdade. Realidade tão intensa quanto a fugacidade dos anseios de porvir. Confia cegamente na maturidade que se adquire, grata pelo aprendizado rápido e eficaz de que o amor, de fato, só existe nos atropelos da convivência, no encontro dos desajustes, no sentir mesmo nas turbulências, na expressão de respeito pelo que se é. Constância inconstante de emoções indefinidas e necessárias. Amadurecimento vagaroso determinado por momentos de desordem interna e externa. Cumplicidade que se expressa apesar dos enigmas e contradições de seres opostos que jamais se completam, apenas evoluem entre possíveis …

Caminhos dicotômicos

Não lhe diria verdades, nunca as conheci. Tampouco desfecharia os inúmeros sonhos inconclusos que permaneceram latentes enquanto pensávamos estar no caminho. Nunca saberíamos se as estradas que escolhemos e as trajetórias que fizemos foram realmente escolhas. De fato, pouco valeria lastimar e fazer conjecturas. Basta-me a realidade detectada pela pupila dos olhos teus e meus, sentida na pele como distante toque etéreo. Adormecida, enquanto em vigília presumes e anseias o que jamais viverás. Reformulas vontades, despertando sorrisos que se encontram longe de ser o que desejas. Não seria lamento, apenas dúvida, suspeita de equívocos... Desconfiança de que, se os caminhos não fossem bifurcados e dicotômicos, se os desejos não fossem imaturos, ainda estarias ao meu lado.
Wanderlúcia Welerson Sott Meyer