6 de mai de 2010

Homenagem ao meu querido amigo...



Tenho um amigo, alguém que me ensinou muito, até mesmo quando silenciava e somente ouvia. Amigo que era capaz de me descrever como um lago sereno e tranquilo na superfície, apresentando grande turbulência em seu interior... Ninguém me descreveu tão bem assim... Talvez, por que me conhecesse melhor do que qualquer pessoa...
Era uma pessoa simples, que desde cedo convivera com problemas e pobreza, mas, que tinha alma nobre, espírito leve e muita, muita vontade de Ser. Conversávamos horas sobre nada e quando percebíamos, havíamos dito tudo. Companheiro querido de muitas conversas, sensibilidade de artista. Ganhei dele minhas primeiras e únicas serenatas, em uma época que já não era comum oferecer serenatas a alguém.
Eu sabia o que existia em seu coração e ele tinha medo de que eu soubesse...
Nos admirava-nos mutuamente e não havia tempo quando estávamos perto. Sentia no olhar, nos gestos e nas palavras a sinceridade que tem que existir em uma relação onde permeiam os sentimentos do verdadeiro amor.
Como manda o destino, nos afastamos, cada um seguiu seu caminho. Nunca perdi de vista o seu crescimento profissional e pessoal.                 Tenho certeza que ele sempre acompanhou o meu...em silêncio. Discretamente nossas almas seguiam juntas.
Certa vez, eu o reencontrei ao acaso. Abraçamo-nos, como fazem os amigos. Li em seus olhos a felicidade e nos meus a alegria do reencontro. Passaram-se tantos anos e ainda existia um elo tão forte entre nós que nos perdemos novamente no tempo. Quando nos despedimos, senti que nunca mais viveria um momento como aquele. De olhos úmidos, voz embargada... Abraçamo-nos como de costume, e ele me disse:
_ Não se apresse... Deus pode estar preparando alguém para você!
Nunca mais estivemos tão próximos...
E nos tornamos distantes, cada um seguindo seu destino. Nunca me esqueci dele, nem das serenatas, nem das longas conversas, nem do olhar fraterno que me envolvia.
Nunca tive a oportunidade de lhe dizer o quanto era importante pra mim.
Certa noite, no silêncio e na solidão do meu quarto...lembrei-me dele e do carinho que tínhamos um pelo outro, resolvi enviá-lo um email, onde descrevi a importância e valor que todas essas lembranças. Não obtive nenhuma resposta e, até pensei que o endereço estivesse errado, mas algo me dizia que precisava fazer. Precisava que ele soubesse o quanto foi bom conhecê-lo, o quanto era bom saber que alguém podia ler minha alma como só ele mesmo fazia e fez.
Passaram-se duas semanas e nenhum contato...
Visitando meus pais em minha cidade Natal, acordei em uma manhã de sábado com meu pai me dizendo:
_ Filha, aquele seu amigo, Sérgio, morreu!
Não consegui entender direito quem era e o que ele dizia. Havia sonhado a noite com o Sérgio, e não poderia ser a mesma pessoa. Depois de um tempo com os olhos úmidos e a alma dilacerada, confirmei o desencarne daquela pessoa que tornara bons dias de minha vida inesquecíveis.
Ele havia conseguido tudo que lhe faltava na infância. Terminara os estudos, era um profissional competente e admirado, casara-se... E, entrou em um mundo que não lhe pertencia... Não porque não merecesse...
Estive no velório dele... Minha alma triste... Meus olhos úmidos e a mesma voz embargada!
Acompanhei todo o trajeto do enterro em silêncio!
E segui pensando que aquela pessoa única e especial para mim, já não mais pertencia a esse mundo. Em meio há uma multidão,ele fora escolhido para ensinar-me generosamente o significado do Amor.
Wanderlúcia Welerson Sott Meyer
Publicado no Recanto das Letras em 06/05/2010
Código do texto: T2240830