11 de jul de 2010

Violência cotidiana e família




            Eu sou mineira, nascida e criada em Manhuaçu, um a cidade do interior que muito me ensinou sobre solidariedade, amizade, respeito e convivência. Também por ser mineira, cresci em uma dessas famílias que estão em extinção. Aprendi a respeitar o ser humano, a tratar as pessoas com igualdade, a usar os pronomes de tratamento Senhor e Senhora quando me refiro a pessoas mais velhas do que eu, a respeitar meus pais e a amá-los. Penso que muitas pessoas que lerem esse texto pensarão: isso está fora de moda. Pois estou sim fora de moda e educo meus filhos para também para não seguirem nenhuma moda. Nunca acreditei que dinheiro em excesso trouxesse felicidade. Aprendi que mais vale o calor de um abraço do que um caro brinquedo depositado na mão de uma criança (que certamente o deixará depois que a novidade deixar de ser importante), do colo oferecido sem pressa, do afago das mãos e as palavras sinceras de afetividade que pais e mães esquecem-se de proferir e sentir, trocando bens materiais, pela imprescindível presença do amor.
Sou mineira, uma caipira nascida em uma cidadezinha que muito me ensinou e me orgulho disso! Um orgulho que nunca me colocou acima de ninguém e que me ofereceu amigos vida a fora, de todas as classes sociais (não gosto muito dessa classificação, temos que ter classe educacional), cultura e diversidades que sempre contribuíram e muito para minha formação.
Ouvia minha avó dizendo que não importava se um “chefe de família” (hoje, homens e mulheres), estivesse à beira da morte, cabia aos filhos o respeito e a consideração pelo papel que o mesmo representa. Sinto-me mesmo fora de moda... Ensino meus filhos a respeitarem o outro, a serem verdadeiros e gentis, a amarem, a expressarem o amor com palavras e atitudes, a olharem nos olhos quando falam e a dizerem o que pensam com respeito e carinho. 
Muitas vezes me perguntei se os estou educando adequadamente, em um mundo que insiste em negar a importância da família, em que o ter sobressai o ser, em que a correria do dia a dia nos transforma em robôs sem sentimentos, onde agredir ou usurpar um colega de escola ou de trabalho tornou-se algo a ser admirado.  Na verdade, me pergunto tudo isso, não porque tenha alguma dúvida sobre o que o ensino, mas, e já me alertaram isso inúmeras vezes, “quem se importa com todos esses valores nos dias de hoje?”... Eu me importo e sei também que eles se importam. Apesar de crianças, sentem a indignação de verem que alguns dos amiguinhos não aprenderam aquilo que já interiorizaram, nada substitui o amor e dizem, apesar da pouca idade, “eu amo minha família!” Quanta coisa e quantas situações podemos evitar quando o verdadeiro amor existe? Quanta dor e quantos crimes podem ser impedidos quando sabemos que em casa, alguém nos espera e nos ama? Quanto sofrimento poderia ser minimizado se ao invés de comprarmos produtos caros e desnecessários, organizássemos nosso tempo para ir a uma festinha na escola de nossos filhos, ajudá-los na arrumação das mochilas, olhar seus cadernos de deveres e cdepositar palavras de carinho e incentivo nas avaliações e testes que eles nos mostram com medo e orgulho? Quanto admiração e respeito poderíamos construir nessa relação de afeto que nós serve de base segura para todas as decisões e atitudes futuras?
Estou sim em desuso e fora de moda, mas, já vi no rosto a indignação dos meus filhos quando pais deixam de ir a uma festinha dos filhos e enviam outras pessoas que passam a integrar sim a família e chegam a ser mais importantes que os próprios pais, por que ali estão presentes, mas, que jamais substituirão a necessidade da presença dos que ali deveriam estar.
Já ouvi uma mãe dizer que era apenas provedora, penso que na hora que essa pessoa de escolaridade avançada e “esclarecida”, proferiu essas palavras, não sabia mesmo o que estava dizendo. Podem me considerar ultrapassada, mas, eu me senti ofendida pela criança e fiquei imaginando se não passou a da hora de lembrar a algumas pessoas que só o amor educa e que podemos ler e ouvir todos os dias casos em que a ausência do amor, do afeto e da família causou estragos irreversíveis para inúmeros seres humanos que poderiam escrever histórias diferentes.
Jovens que atam fogo em índios, batem em empregadas domésticas, matam seus pais, envolvem-se em situações de violência e morte e depois são tomados pelo arrependimento tardio, caminhos sem volta, violências desmedidas de quem não conhece o que o amor. A cada caso desses que a mídia explora até que o ódio que existe em nós, caminhe energeticamente a cada um dos envolvidos, fica dentro de mim a dor e a reflexão de que a história poderia ser diferente se o que chamam de ultrapassado, de utopia, de piegas, de ilusão passasse a fazer parte da formação dessas pessoas desde os primeiros instantes de vida! É com profunda tristeza que escrevo tudo isso, porque a certeza que tenho é a de que tudo é mais simples do que se imagina, “a lição sabemos de cor, só nos resta aprender”.
Não adianta julgar, condenar, pedir pena de morte, linchar ou proferir maldições depois que essas atrocidades acontecem. Só sabe amar que foi amado, só sabe respeitar quem cresce em ambiente de respeito e carinho. Só se aprende quando alguém nos ensina e não há forma mais lúcida e verdadeira de ensinar, do que o próprio exemplo.
Estou em desuso, fora de moda... Acredito no ser humano, nas pessoas e no amor!
Wanderlúcia Welerson Sott Meyer
Publicado no Recanto das Letras em 11/07/2010
Código do texto: T2370820