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Preciso amar


Delibero que, única, de muitas existências, embora me encontre neste século, ainda sinto-me presa conceitualmente a velhos hábitos. Difícil me acostumar com os descartáveis. Minha alma ainda se prende as relações duradouras, sentimentos preservados e reconstruções. Digo reconstruções porque não compreendo como pessoas podem ser tratadas como objetos de uso temporário, passados podem ser negados, recomeços considerados como inícios, recusa de toda experiência vivenciada. Sou da época em que as geladeiras e casamentos faziam bodas de ouro, não pela idade, mas pela necessidade de acrescer, pela certeza de pertencer ao mundo e de evoluir diariamente. Época em que o carro seguia o dono e, durava até acabar ou, não acabava porque era conduzido e conservado com zelo, diferente do que percebemos nas relações passageiras, onde o egocentrismo nos impossibilita a compreensão. Pessoas não competiam, sentiam. Amizades eram para sempre e, relacionamentos faziam jus ao nome...  Convivência benéfica com seus semelhantes, assim descreve o dicionário.   Assim como usufruímos de objetos de consumo material, todos atualmente provisórios e efêmeros, para nossa tristeza e vazio, transferimos para as pessoas com as quais convivemos sentimentos equivalentes. Sou antiga, fora de moda, preciso amar, apensar e sentir saudade!

Gratidão

Certezas de Amor

Estavas ali, sempre estivestes.

Não era matéria palpável

Nem ilusão temporária

Fazia parte dos dias

Desde sempre...

Um alento nos momentos de dor

Uma esperança de amor

Visitava-me nos sonhos

Acariciava-me o rosto

Registrava-se a presença

Partia...

Permanecia a sensação do encontro

Serenidade pretendida

Essência de sentimentos duradouros

Suavidade que se sente

Tal brisa suave tocando o corpo

Indivisível êxtase

Emoções desejadas

Puras, intensas

Tradução apropriada de Amor!

Amor maduro

Será preciso tempo para regenerar as lesões provocadas pelo desvario dos sentimentos. Não é possível afirmar se era amor de fato. Serviu como alento enquanto próximo estava. Agora, que apreende e absorve palavras proferidas sem nenhum compromisso estreito com a verdade, analisando frases soltas e atitudes contraditórias, percebe-se claramente a ineficiência das palavras que não condizem com a verdade. Realidade tão intensa quanto a fugacidade dos anseios de porvir. Confia cegamente na maturidade que se adquire, grata pelo aprendizado rápido e eficaz de que o amor, de fato, só existe nos atropelos da convivência, no encontro dos desajustes, no sentir mesmo nas turbulências, na expressão de respeito pelo que se é. Constância inconstante de emoções indefinidas e necessárias. Amadurecimento vagaroso determinado por momentos de desordem interna e externa. Cumplicidade que se expressa apesar dos enigmas e contradições de seres opostos que jamais se completam, apenas evoluem entre possíveis …

Caminhos dicotômicos

Não lhe diria verdades, nunca as conheci. Tampouco desfecharia os inúmeros sonhos inconclusos que permaneceram latentes enquanto pensávamos estar no caminho. Nunca saberíamos se as estradas que escolhemos e as trajetórias que fizemos foram realmente escolhas. De fato, pouco valeria lastimar e fazer conjecturas. Basta-me a realidade detectada pela pupila dos olhos teus e meus, sentida na pele como distante toque etéreo. Adormecida, enquanto em vigília presumes e anseias o que jamais viverás. Reformulas vontades, despertando sorrisos que se encontram longe de ser o que desejas. Não seria lamento, apenas dúvida, suspeita de equívocos... Desconfiança de que, se os caminhos não fossem bifurcados e dicotômicos, se os desejos não fossem imaturos, ainda estarias ao meu lado.
Wanderlúcia Welerson Sott Meyer