26 de mar de 2014

Amor maior

Observo meus filhos adolescendo... Tenho a impressão que não foi há tanto tempo assim que também vivenciei as questões que os afligem. Se considerarmos a vida como um caminho de evolução contínua, realmente não foi. Ouço suas perguntas, procuro responder o necessário e, quando excedo nas explicações, eles me alertam com um “já entendi, mamãe”, lembrando-me que o entendimento caminha ao lado da maturidade adquirida.
Os sonhos, as ansiedades, o desejo de amor, a inconsistência dos sentimentos... Processo natural de conflito que os conduz aos questionamentos e dúvidas necessárias. Passei por todas essas etapas, ainda passo... mesmo que em proporções e possibilidades diferenciadas, contudo adquiri com as experiências a consciência de que é preciso manter a serenidade diante dos conflitos.
Lembro-me que, nesse mesmo período de desenvolvimento, fui ter com uma amiga, conselheira e confidente, já em adiantada idade, que me socorria sempre que as dúvidas assolavam minha alma. Dona Ieda... Olhos de paz, voz suave, compreensão aguçada por experiências de vida. Relatei minhas angústias, os sentimentos conflitantes, a ansiedade natural de amar e ser amada, o futuro incerto, os planos de estudo e trabalho que certamente já estavam traçados e eu os desconhecia. Disse-lhe de minha afetividade sincera envolvida em um imediatismo gritante que provocava desajustes em meu ser. Escutando-me silenciosamente ela sorria com os olhos e, no desfecho de minha fala juvenil, argumentei com os olhos marejados d’água: “Acho que (nessa época ainda achava, pois quem acha não tem certeza) não serei feliz no amor...”; sorrindo, ela apenas disse: “Acalme-se querida, você terá um longo caminho de aprendizado de amor.” Continuei: “Mas, quando saberei quando chegar?” Acariciando minha face, enternecida pela inexperiência que me envolvia, ela respondeu: “Siga o seu coração e consulte sua consciência... se você pensa muito em alguém, certamente, essa pessoa também pensa em você.” Saí de lá enternecida pelas sábias palavras e acalentada por um amor que ainda não compreendia.
Hoje, vinte e oito anos depois, consigo visualizar o sorriso de minha querida amiga, lembrança de luz que me acompanha. Compreendo que o amor que tanto me afligia encontra-se na serenidade que vou adquirindo. Descubro a expressão do amor de diferentes formas: no colo que acolhe o filho, nas mãos que afagam, nos ouvidos que se entregam à escuta, na renúncia que sustenta para que o caminho seja menos tortuoso, no olhar que compadece, no trabalho voluntário, no amanhecer oferecendo-me possibilidades de recomeço.
São tantas as possibilidades de amor e tão singelas... Tão próximas e ao mesmo tempo, tão remotas. O princípio descaracterizado por expressões de imaturidade nossa, torna-se o fim.
Não poderei escolher e tão pouco viver por meus filhos. Venho lhes oferecendo a formação básica para uma vida tranquila. Conceitos que acredito serem fundamentais para o discernimento e escolha dos caminhos que seguirão: Amor a Deus, Amor próprio, Amor ao próximo. Sentimentos que lhes fornecerão oportunidades de crescimento e amadurecimento emocional e intelectual seguros. Contudo, sei que cada um seguirá suas tendências e possibilidades... O certo é que procurarei estar ao lado, em nome do amor que hoje reconheço. Sorrindo e chorando se necessário for. Há no amor uma espécie de encantamento que me leva a crer que somos lapidados generosamente pela vida.