28 de dez de 2010

Despertei




Era fácil dizer-me o que fazer, apesar de corajosa e independente, vencia-me pelo afago, palavras de carinho proferidas, nem precisavam ser muito intensas, entregava-me. A carência de si nos deixa conduzir e, certamente, antes não imaginava que pudesse ser controlada por minha sensibilidade. Mulher nenhuma, quando entregue ao amor, tem essa noção, bastam-lhe flores, declarações clichês e o desejo. Ah o desejo! Esse é o que nos domina! Perdemos a noção, o raciocínio e acreditamos mesmo que podemos viver no nada e do nada se amamos. Uma entrega absoluta, sem endereço para que o remetente receba nem mesmo um pequeno telegrama. Doa-se tudo, tempo, vida, mocidade... alegria! Oferecemos nossa alma e ainda pensamos absorver a alma do outro, achamos (e quem acha não tem certeza) que conhecemos profundamente o ser amado. Sim, ser amado, aquele em que depositamos nossas esperanças e sonhos, aquele que nos jura amor eterno e fidelidade. Não que a fidelidade nos seja essencial, há traições maiores que simplesmente se envolver fisicamente com outra pessoa. Qualquer um se sentiria traído se depois de um tempo, de frente a um espelho, constatasse que perdera-se para outro e não perderá o outro para alguém. Essa perda de si é bem mais dolorosa e cruel, sabotamos nossos sonhos mais ternos em nome de um único ser que, mesmo inconsciente, só nos absorveu por necessidade. Doação unilateral que com o tempo perde o sentido porque perdemos a alegria.
Não consigo encontrar culpados para uma catástrofe pessoal sem precedentes que, culturalmente, aceitamos sem reserva. E ainda nos dizem para não reclamar, existem situações piores! Como se eu não soubesse... Mas, há quem se contente, a quem se revolte e quem, unicamente, não quer se tornar mais um.
Não, ninguém derrubou meus castelos. Meu príncipe não virou sapo e meu mundo não caiu quando fiz essa descoberta. Confesso que no início, revoltou-me a idéia de ter amado permitindo que meus ideais fossem absorvidos com consentimento próprio. Sim, eu permiti tudo em nome do amor!
Só fazemos isso porque desconhecemos o que amor. Acreditamos que apenas uma vez amaremos, de um só modo e uma só pessoa. Há quem diga ser possível morrer por amor... Nunca entendi. Como se pode morrer amor? Amor é vida! Essencialmente vida! E quando amamos a ponto de esquecermos nossos interesses e limites, suprimimos nosso amor próprio, aquele que deveria vir em primeiro lugar e, este é citado inclusive como um dos mandamentos da Lei de Deus, “Amar ao próximo como a ti mesmo.” Como pode ser possível amar alguém se você não se ama?
Se é de amor que estamos falando e eu creio que há em nós mais sentimento de amor do que imaginamos possuir, depositando todo esse manancial em uma só pessoa estaríamos nos adoecendo e enlouquecendo o outro. Quem ainda acredita morrer de amor por alguém, carrega dentro de si uma devastadora doença que consome aquele que ama e quem é supostamente amado. Existem tantas pessoas a nossa volta esperando palavras de afeto, abraços, olhares e atitudes que venham suavizar suas dores e, egoisticamente, canalizamos tudo de bom que temos, todos os sentimentos que possuímos a um só Ser. Eu não compreendo mesmo como podemos viver tantas existências cometendo equívocos em nome do amor.
Há quem retenha por pensar que ama e que prefira ver apagado o sorriso no rosto de quem diz amar, do que restituir-lhe a liberdade! Há quem agrida física e moralmente e, continue utilizando a palavra “amor”, para justificar atitudes de insanidade e desafeto! Há quem se detenha diante do altar e jure estar presente na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza e, no momento em que o ser amado mais necessite, esteja ausente (existe traição maior?)!
Posso ter me perdido um pouco e por um longo tempo, mas, o que vivi concedeu o discernimento em relação ao sentimento de existir, de amar.
Quero, posso e vou amar muito e sem reservas a vida, as pessoas, as idéias, as atitudes. Os dias que se tornaram únicos, os momentos que quando bons serão eternos e quando incomodarem não me servirão mais como memória. Aprendi que amar é o que sabemos fazer de melhor! E que quando esse afeto existe e, é verdadeiro, quanto mais oferecemos mais o teremos. A quem desejar me amar e reconheço que tenho várias e verdadeiras pessoas que me amam, digo-lhes que nasci para servir o mundo! Há forma mais bela de externar o amor do que servir o mundo? Certamente não.
Quanto desgaste teria evitado se anteriormente soubesse o significado do amor em minha vida!
Wanderlúcia Welerson Sott Meyer
Publicado no Recanto das Letras em 28/12/2010
Código do texto: T2696428