Pular para o conteúdo principal

Despertei




Era fácil dizer-me o que fazer, apesar de corajosa e independente, vencia-me pelo afago, palavras de carinho proferidas, nem precisavam ser muito intensas, entregava-me. A carência de si nos deixa conduzir e, certamente, antes não imaginava que pudesse ser controlada por minha sensibilidade. Mulher nenhuma, quando entregue ao amor, tem essa noção, bastam-lhe flores, declarações clichês e o desejo. Ah o desejo! Esse é o que nos domina! Perdemos a noção, o raciocínio e acreditamos mesmo que podemos viver no nada e do nada se amamos. Uma entrega absoluta, sem endereço para que o remetente receba nem mesmo um pequeno telegrama. Doa-se tudo, tempo, vida, mocidade... alegria! Oferecemos nossa alma e ainda pensamos absorver a alma do outro, achamos (e quem acha não tem certeza) que conhecemos profundamente o ser amado. Sim, ser amado, aquele em que depositamos nossas esperanças e sonhos, aquele que nos jura amor eterno e fidelidade. Não que a fidelidade nos seja essencial, há traições maiores que simplesmente se envolver fisicamente com outra pessoa. Qualquer um se sentiria traído se depois de um tempo, de frente a um espelho, constatasse que perdera-se para outro e não perderá o outro para alguém. Essa perda de si é bem mais dolorosa e cruel, sabotamos nossos sonhos mais ternos em nome de um único ser que, mesmo inconsciente, só nos absorveu por necessidade. Doação unilateral que com o tempo perde o sentido porque perdemos a alegria.
Não consigo encontrar culpados para uma catástrofe pessoal sem precedentes que, culturalmente, aceitamos sem reserva. E ainda nos dizem para não reclamar, existem situações piores! Como se eu não soubesse... Mas, há quem se contente, a quem se revolte e quem, unicamente, não quer se tornar mais um.
Não, ninguém derrubou meus castelos. Meu príncipe não virou sapo e meu mundo não caiu quando fiz essa descoberta. Confesso que no início, revoltou-me a idéia de ter amado permitindo que meus ideais fossem absorvidos com consentimento próprio. Sim, eu permiti tudo em nome do amor!
Só fazemos isso porque desconhecemos o que amor. Acreditamos que apenas uma vez amaremos, de um só modo e uma só pessoa. Há quem diga ser possível morrer por amor... Nunca entendi. Como se pode morrer amor? Amor é vida! Essencialmente vida! E quando amamos a ponto de esquecermos nossos interesses e limites, suprimimos nosso amor próprio, aquele que deveria vir em primeiro lugar e, este é citado inclusive como um dos mandamentos da Lei de Deus, “Amar ao próximo como a ti mesmo.” Como pode ser possível amar alguém se você não se ama?
Se é de amor que estamos falando e eu creio que há em nós mais sentimento de amor do que imaginamos possuir, depositando todo esse manancial em uma só pessoa estaríamos nos adoecendo e enlouquecendo o outro. Quem ainda acredita morrer de amor por alguém, carrega dentro de si uma devastadora doença que consome aquele que ama e quem é supostamente amado. Existem tantas pessoas a nossa volta esperando palavras de afeto, abraços, olhares e atitudes que venham suavizar suas dores e, egoisticamente, canalizamos tudo de bom que temos, todos os sentimentos que possuímos a um só Ser. Eu não compreendo mesmo como podemos viver tantas existências cometendo equívocos em nome do amor.
Há quem retenha por pensar que ama e que prefira ver apagado o sorriso no rosto de quem diz amar, do que restituir-lhe a liberdade! Há quem agrida física e moralmente e, continue utilizando a palavra “amor”, para justificar atitudes de insanidade e desafeto! Há quem se detenha diante do altar e jure estar presente na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza e, no momento em que o ser amado mais necessite, esteja ausente (existe traição maior?)!
Posso ter me perdido um pouco e por um longo tempo, mas, o que vivi concedeu o discernimento em relação ao sentimento de existir, de amar.
Quero, posso e vou amar muito e sem reservas a vida, as pessoas, as idéias, as atitudes. Os dias que se tornaram únicos, os momentos que quando bons serão eternos e quando incomodarem não me servirão mais como memória. Aprendi que amar é o que sabemos fazer de melhor! E que quando esse afeto existe e, é verdadeiro, quanto mais oferecemos mais o teremos. A quem desejar me amar e reconheço que tenho várias e verdadeiras pessoas que me amam, digo-lhes que nasci para servir o mundo! Há forma mais bela de externar o amor do que servir o mundo? Certamente não.
Quanto desgaste teria evitado se anteriormente soubesse o significado do amor em minha vida!
Wanderlúcia Welerson Sott Meyer
Publicado no Recanto das Letras em 28/12/2010
Código do texto: T2696428

Gratidão

Certezas de Amor

Estavas ali, sempre estivestes.

Não era matéria palpável

Nem ilusão temporária

Fazia parte dos dias

Desde sempre...

Um alento nos momentos de dor

Uma esperança de amor

Visitava-me nos sonhos

Acariciava-me o rosto

Registrava-se a presença

Partia...

Permanecia a sensação do encontro

Serenidade pretendida

Essência de sentimentos duradouros

Suavidade que se sente

Tal brisa suave tocando o corpo

Indivisível êxtase

Emoções desejadas

Puras, intensas

Tradução apropriada de Amor!

Amor maduro

Será preciso tempo para regenerar as lesões provocadas pelo desvario dos sentimentos. Não é possível afirmar se era amor de fato. Serviu como alento enquanto próximo estava. Agora, que apreende e absorve palavras proferidas sem nenhum compromisso estreito com a verdade, analisando frases soltas e atitudes contraditórias, percebe-se claramente a ineficiência das palavras que não condizem com a verdade. Realidade tão intensa quanto a fugacidade dos anseios de porvir. Confia cegamente na maturidade que se adquire, grata pelo aprendizado rápido e eficaz de que o amor, de fato, só existe nos atropelos da convivência, no encontro dos desajustes, no sentir mesmo nas turbulências, na expressão de respeito pelo que se é. Constância inconstante de emoções indefinidas e necessárias. Amadurecimento vagaroso determinado por momentos de desordem interna e externa. Cumplicidade que se expressa apesar dos enigmas e contradições de seres opostos que jamais se completam, apenas evoluem entre possíveis …

Caminhos dicotômicos

Não lhe diria verdades, nunca as conheci. Tampouco desfecharia os inúmeros sonhos inconclusos que permaneceram latentes enquanto pensávamos estar no caminho. Nunca saberíamos se as estradas que escolhemos e as trajetórias que fizemos foram realmente escolhas. De fato, pouco valeria lastimar e fazer conjecturas. Basta-me a realidade detectada pela pupila dos olhos teus e meus, sentida na pele como distante toque etéreo. Adormecida, enquanto em vigília presumes e anseias o que jamais viverás. Reformulas vontades, despertando sorrisos que se encontram longe de ser o que desejas. Não seria lamento, apenas dúvida, suspeita de equívocos... Desconfiança de que, se os caminhos não fossem bifurcados e dicotômicos, se os desejos não fossem imaturos, ainda estarias ao meu lado.
Wanderlúcia Welerson Sott Meyer